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BRASIL SAI DO MAPA DA FOME, MAS DESIGUALDADE AINDA PERSISTE

No dia 28 de julho de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) anunciou que o Brasil saiu do Mapa da Fome. Esse resultado é fruto de diversas políticas públicas voltadas à redução da pobreza, ao fortalecimento da agricultura familiar, ao estímulo à geração de empregos e à promoção da alimentação saudável e escolar.

O cálculo que define se um país integra ou não o Mapa da Fome considera três fatores principais: a quantidade de alimentos disponíveis no território, levando em conta a produção interna, importações e exportações; o consumo de alimentos pela população, de acordo com a renda e o poder de compra; e a quantidade mínima de calorias necessárias por dia para garantir uma vida saudável a um “indivíduo médio” representativo da população. A partir desses dados, estima-se a distribuição dos alimentos, reconhecendo que ela não é igualitária, já que pessoas com menor renda têm menos acesso à alimentação adequada. Se o percentual da população com ingestão insuficiente de calorias ultrapassar 2,5%, o país é incluído no Mapa da Fome.

Entre 2019 e 2021, o Brasil enfrentou um período difícil: cerca de 61 milhões de pessoas tiveram dificuldades para se alimentar. Esse cenário foi agravado pela pandemia de Covid-19 e pela ausência de políticas públicas eficazes. Segundo Daniel Balaban, diretor do Programa de Alimentos da ONU no Brasil, a pandemia não foi a única responsável pelo agravamento da fome, mas sim a profunda desigualdade social que caracteriza o país. Ele destacou que a população mais vulnerável depende de políticas públicas que garantam sua inclusão social e cidadania.

Dados do IBGE referentes a 2021 revelam que cerca de 62,5 milhões de brasileiros viviam na pobreza e 17,9 milhões em extrema pobreza, com destaque para o aumento do número de crianças em situação de vulnerabilidade e para o crescimento da desigualdade social.

Nos últimos anos, porém, o cenário começou a mudar. Com a implementação de políticas públicas voltadas à segurança alimentar e à redução da pobreza, a desigualdade na alimentação diminuiu e o país conseguiu deixar o Mapa da Fome. Segundo a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), até o final de 2023 cerca de 24 milhões de brasileiros saíram da situação de insegurança alimentar grave. No mesmo período, a pobreza extrema caiu 4,4%, o que representa a saída de quase 10 milhões de pessoas dessa condição em relação a 2021.

O rendimento domiciliar per capita atingiu o recorde de R$ 2.020, impulsionado pela recuperação do emprego. De acordo com o Caged, das 1,7 milhão de vagas formais criadas no Brasil em 2024, 98,8% foram ocupadas por pessoas inscritas no Cadastro Único do Governo Federal. O aumento da renda permitiu que cerca de um milhão de famílias superassem a pobreza e deixassem de depender do Bolsa Família em julho de 2025. Esses resultados mostram que as políticas públicas aplicadas nos últimos anos tiveram efeitos concretos sobre a renda e a qualidade de vida da população.

Entretanto, a melhora nos indicadores não significa o fim da fome no país. Segundo a Folha de São Paulo, 50,2 milhões de brasileiros ainda não conseguem pagar por uma alimentação saudável, o que corresponde a 23,7% da população. A questão está fortemente ligada à desigualdade na distribuição de alimentos e ao baixo poder de compra das famílias. Além disso, a pobreza no Brasil tem raízes históricas, políticas e econômicas, relacionadas ao passado colonial e à estrutura social desigual herdada desse período. Essa herança, somada à concentração da produção e comercialização de alimentos nos grandes centros urbanos, contribui para a formação dos chamados “desertos alimentares” — regiões onde há escassez de alimentos saudáveis e acessíveis.

Atualmente, o Governo Federal dá continuidade às ações de combate à fome. A nova fase do Plano Brasil Sem Fome, que será iniciada ainda neste mês, tem como foco grupos que sofrem com subnutrição ou acesso precário a alimentos, como famílias com crianças, mulheres negras e populações indígenas. A implementação de políticas públicas nesse âmbito é fundamental para garantir resultados duradouros.

Sair do Mapa da Fome representa uma conquista significativa para o Brasil, mas ainda há muito a ser feito. Erradicar a fome exige esforços conjuntos do governo, da sociedade e da comunidade internacional. Apenas com políticas consistentes e compromisso social será possível assegurar o direito à alimentação de qualidade para todos os brasileiros.

Referências

BALABAN, Daniel. Declaração sobre a fome no Brasil. Programa Mundial de Alimentos – ONU Brasil, 2023. Disponível em: https://brasil.un.org/. Acesso em: 4 nov. 2025.


BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Plano Brasil Sem Fome 2024–2027. Brasília, DF, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mds/. Acesso em: 4 nov. 2025.


BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED): relatório anual 2024. Brasília, DF, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho/. Acesso em: 4 nov. 2025.


FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Brasil sai do Mapa da Fome. Brasília, DF, 2023. Disponível em: https://www.fao.org/brasil/. Acesso em: 4 nov. 2025.


FOLHA DE S. PAULO. Mais de 50 milhões de brasileiros não têm acesso a alimentação saudável, diz pesquisa. São Paulo, 2024. Disponível em: https://www.folha.uol.com.br/. Acesso em: 4 nov. 2025.


IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Síntese de Indicadores Sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/. Acesso em: 4 nov. 2025.


REDE PENSSAN. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil. São Paulo: Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, 2023. Disponível em: https://olheparaafome.com.br/. Acesso em: 4 nov. 2025.

 
 
 

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