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Entre o Consumo e a Identidade: O Brasil Frente ao Mito do Sonho Americano

Nos últimos anos, a globalização tem interligado diversas culturas e tradições de diferentes países, fazendo com que a comunicação e a comercialização evoluíssem em parâmetros inimagináveis. Entretanto, esse feito também influenciou outros movimentos no mundo digital. O compartilhamento de vídeos e propagandas criou uma imagem distorcida e idealizada de rotinas ao redor do globo. Entre as mais famosas, destaca-se o “American Dream”, traduzido como “Sonho Americano”. Essa ideia consiste em um estilo de vida completamente americanizado, que incentiva o consumismo e romantiza uma suposta “vida perfeita”, marcada por itens de luxo e uma realidade distante daquela vivida pela maioria das pessoas.


Essa idealização é problemática porque, ao exaltar um país, acaba por menosprezar outros. Muitas vezes, países considerados de “segundo mundo” oferecem serviços de saúde e educação de qualidade, áreas reconhecidas como primordiais quando o assunto é política pública, em nível equivalente, ou até superior, ao de nações tidas como centros socioculturais.


Reprodução: Brigadeirão News
Reprodução: Brigadeirão News

Apesar da constante propagação do “American Dream” pelos Estados Unidos, a realidade é bem diferente. Influenciadores digitais brasileiros que reproduzem costumes norte-americanos ignoram completamente o contexto político e social local, transmitindo a ideia de que os EUA representam um futuro perfeito. No entanto, essa realidade é acessível apenas aos mais ricos. A imagem de “vida perfeita” é sustentada por baixos preços de itens supérfluos, ao mesmo tempo em que esconde falhas graves, como a precariedade da saúde pública. Embora seja um país rico e desenvolvido, os EUA estiveram, ao longo da sua história, atrasados em vários aspectos, como a questão racial, basta lembrar que, até a década de 1970, os negros ainda não tinham plenos direitos civis. Assim, o país é romantizado pela cultura do consumo, enquanto questões sociais profundas seguem sem solução, limitando o desenvolvimento de uma parcela esquecida da população, escondida atrás da cortina do Sonho Americano.


Em comparação, o Brasil se destaca em alguns setores em relação aos EUA. É referência na exportação de produtos agrícolas, como o café, e na área de mineração, como petróleo e ferro. Também lidera na exportação de aeronaves e componentes, itens de alto valor agregado no mercado global. Além disso, conta com a implementação do SUS (Sistema Único de Saúde), que garante atendimento universal, enquanto a população dos Estados Unidos enfrenta altos custos com planos privados, muitas vezes recorrendo a empréstimos ou formas alternativas para custear tratamentos médicos. Outro dado revelador é que o Brasil teve um presidente negro quase cem anos antes dos Estados Unidos, o que evidencia avanços em questões étnicas e socioculturais.


Um conceito que descreve bem o comportamento de alguns influenciadores é o complexo de vira-lata, ou viralatismo, como vem sendo popularmente chamado. O termo, criado por Nelson Rodrigues, representa a tendência de idolatrar cegamente uma cultura estrangeira enquanto se inferioriza a própria nação, em busca de uma aprovação que jamais virá, sobretudo porque muitos estrangeiros sequer se importam com os países latino-americanos. Esse pensamento remonta à Idade Média, quando vigorava a ideia do eurocentrismo, que colocava a Europa como centro do mundo e modelo para o restante do planeta. Após a Segunda Guerra Mundial, com a ascensão dos Estados Unidos, esse comportamento passou a se refletir também em relação à cultura norte-americana e, infelizmente, persiste até os dias atuais.


Um exemplo disso ocorreu recentemente, no desfile de 7 de setembro, na Avenida Paulista, quando uma bandeira dos Estados Unidos foi estendida em meio à celebração da Independência do Brasil. O ato, em apoio ao governo Trump — responsável, entre outras medidas, por um decreto que oficializou tarifas de 50% em produtos importados (CNN Brasil, 2025) — escancarou como parte da população fecha os olhos para contradições óbvias e se apega apenas à imagem superficial vendida pelos EUA.


Diante desse cenário, plataformas midiáticas governamentais deveriam investir mais em campanhas de valorização nacional, como o atual projeto “Brasil é Soberano”, criado em resposta a recentes tensões com os Estados Unidos. Iniciativas desse tipo são fundamentais para resgatar o orgulho nacional, fortalecer a imagem positiva do país e combater tanto o viralatismo quanto a ilusão do “American Dream”.


Referências


 
 
 
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