PARTE 2 DA SÉRIE: A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL REDEFINE O PRESENTE E MOLDA O FUTURO DA TECNOLOGIA
- Viviane Burger
- há 11 minutos
- 4 min de leitura
Inteligência artificial e desinformação: especialistas alertam para os desafios da era da "abundância sintética"
Na primeira reportagem desta série, especialistas explicaram como a inteligência artificial evoluiu em uma velocidade sem precedentes, impulsionando transformações no mercado de trabalho, na educação e em diversos setores da sociedade. Também discutiram o avanço da chamada IA agêntica e as competências humanas que tendem a ganhar ainda mais importância em um cenário de crescente automação.
Nesta segunda publicação, a discussão se volta para outro desafio que acompanha essa revolução tecnológica: o impacto da inteligência artificial sobre a produção, a circulação e a credibilidade das informações.
Com modelos capazes de criar textos, imagens, vídeos e vozes cada vez mais realistas, distinguir o que é autêntico do que foi gerado por uma máquina tornou-se uma tarefa cada vez mais complexa. Ao mesmo tempo, enquanto empresas anunciam novas tecnologias em ritmo acelerado, governos de todo o o mundo buscam construir regras capazes de equilibrar inovação, segurança e responsabilidade.
Para analisar esse cenário, a reportagem volta a ouvir os pesquisadores Tarliz Liao e Sandra Cristina Martini Rostirola, que discutem os riscos da desinformação, os desafios da regulamentação e as mudanças que a inteligência artificial deve provocar no cotidiano das pessoas nos próximos anos.
"Vivemos a era da abundância sintética"
A disseminação de conteúdos gerados por inteligência artificial ampliou um problema que já existia muito antes do surgimento das ferramentas generativas: a desinformação. Para Tarliz Liao, as chamadas fake news não nasceram com a inteligência artificial, mas a tecnologia potencializou sua escala e velocidade de disseminação. "A questão das fake news remonta à própria história da humanidade. Toda tecnologia, analógica ou digital, traz questionamentos dessa natureza."
Segundo o pesquisador, a facilidade de produzir conteúdos altamente convincentes torna ainda mais importante o desenvolvimento do pensamento crítico. Muitas pessoas tendem a confiar automaticamente nas informações encontradas na internet, o que aumenta o risco de manipulação.
Nesse contexto, Liao defende o conceito de Sabedoria Digital, que vai além da capacidade de utilizar ferramentas tecnológicas. "Não basta saber utilizar aplicativos. É necessário desenvolver uma postura crítica diante das informações que consumimos."
Sandra Cristina Martini Rostirola acredita que a sociedade está entrando em uma nova etapa da internet. "Estamos entrando na era da abundância sintética. O problema já não é a falta de informação, mas o excesso dela, sendo que boa parte desse conteúdo é produzido artificialmente."
Segundo a pesquisadora, esse cenário tende a dificultar a identificação de fontes confiáveis e pode comprometer a construção do conhecimento, especialmente quando usuários deixam de verificar a origem das informações.
Para enfrentar esse desafio, ela defende investimentos em alfabetização e letramento digital. "Mais importante do que aprender a utilizar uma ferramenta de inteligência artificial é desenvolver a capacidade de verificar fontes, comparar informações e questionar conteúdos antes de aceitá-los como verdade."
A regulamentação consegue acompanhar a IA?
Enquanto empresas lançam novos modelos de inteligência artificial praticamente todos os meses, governos ainda discutem como criar normas capazes de acompanhar a velocidade da inovação sem comprometer seu potencial de desenvolvimento.
Para Tarliz Liao, existe um descompasso natural entre a evolução tecnológica e a capacidade de resposta das instituições. "A velocidade técnica é maior do que a velocidade institucional."
Ele destaca que a União Europeia deu um passo importante ao aprovar o AI Act, legislação que estabelece diferentes níveis de exigência conforme o grau de risco de cada aplicação de inteligência artificial. No Brasil, o principal debate gira em torno do Projeto de Lei nº 2.338/2023, que busca estabelecer diretrizes para o desenvolvimento, o uso e a governança da IA.

Apesar dessas iniciativas, o pesquisador avalia que o processo regulatório ainda avança lentamente e enfrenta desafios políticos, jurídicos e institucionais. Sandra Cristina compartilha dessa avaliação. Segundo ela, nenhum país conseguiu acompanhar o ritmo das transformações tecnológicas. "A tecnologia avança muito mais rápido do que qualquer processo regulatório." Para a pesquisadora, o desafio está em encontrar um ponto de equilíbrio.
Uma regulamentação insuficiente pode favorecer abusos, violações de direitos e o uso irresponsável da tecnologia. Por outro lado, regras excessivamente restritivas podem limitar a inovação e reduzir os benefícios sociais e econômicos proporcionados pela inteligência artificial. "O ideal é uma regulamentação transparente, que estabeleça responsabilidades claras sem impedir o avanço científico."
Os assistentes inteligentes serão nossos novos companheiros?
Além dos impactos já observados, os pesquisadores acreditam que a presença da inteligência artificial no cotidiano será ainda mais intensa até o final de 2026. Segundo Tarliz Liao, os chamados agentes pessoais inteligentes deverão assumir tarefas rotineiras de maneira cada vez mais autônoma.
Esses sistemas poderão organizar agendas, agendar consultas, elaborar documentos, administrar compromissos e executar diferentes atividades por meio de comandos de voz ou instruções em linguagem natural. Sandra Cristina acredita que essa integração será ainda mais ampla.
Na avaliação da pesquisadora, os assistentes inteligentes deixarão de atuar apenas como sistemas de resposta para se tornarem verdadeiros auxiliares pessoais, capazes de organizar rotinas, negociar serviços, auxiliar em compras, acompanhar indicadores de saúde e personalizar processos de aprendizagem.
Na educação, ela destaca o potencial dos tutores inteligentes, capazes de adaptar conteúdos e estratégias pedagógicas às necessidades individuais de cada estudante. "O smartphone deixará de ser apenas um dispositivo de acesso à informação para se tornar um verdadeiro centro de inteligência pessoal."
A revolução está apenas começando
A inteligência artificial já transformou a forma como buscamos informações, produzimos conteúdo e organizamos nossa rotina. No entanto, para os especialistas, as mudanças mais profundas ainda estão por vir. Se, por um lado, a tecnologia amplia a produtividade e cria novas possibilidades para pessoas e organizações, por outro, também levanta questões fundamentais sobre privacidade, responsabilidade, transparência e confiança nas informações que circulam na sociedade.
Na próxima reportagem desta série, a discussão avança para um tema ainda mais sensível: até que ponto devemos permitir que sistemas de inteligência artificial tomem decisões de forma autônoma? Os pesquisadores também analisam os riscos da interação entre diferentes sistemas de IA, os desafios para a segurança científica e o chamado "colapso de dados", fenômeno que pode comprometer o desenvolvimento das futuras gerações de modelos de inteligência artificial.




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