PSICANÁLISE E TERROR: O QUE O MEDO REVELA DE NÓS?
- Viviane Burger
- 31 de mar.
- 2 min de leitura
Desde o surgimento do gênero de terror, no século XVIII, especialmente com a literatura gótica, obras como Frankenstein ganharam destaque e ajudaram a consolidar o imaginário do horror. Posteriormente, esse universo foi expandido para o cinema, já no final do século XIX e início do século XX, com produções como A Mansão do Diabo, O Gabinete do Doutor Caligari, Nosferatu e Drácula.

Entretanto, as raízes do terror são ainda mais antigas. Em Odisseia, de Homero, já encontramos elementos sobrenaturais, como o encontro de Ulisses com feiticeiras e criaturas míticas. Narrativas sobre mortos-vivos e vampiros também aparecem em tradições da Grécia Antiga, enquanto textos religiosos, como a Bíblia, apresentam episódios envolvendo bruxas, invocação de espíritos e seres monstruosos. Isso demonstra que o medo e o fascínio pelo desconhecido acompanham a humanidade desde seus primórdios.
Nesse contexto, o terror se consolida como um território fértil para a manifestação do inconsciente. Foi nesse mesmo campo que Freud desenvolveu conceitos fundamentais como a angústia, o retorno do reprimido e o inquietante Unheimlich (Freud, 1919). Filmes de terror, portanto, frequentemente dramatizam conflitos internos, traumas e desejos reprimidos.
Um exemplo marcante é The Babadook (2014), de Jennifer Kent. No filme, o monstro surge a partir de um livro infantil e pode ser interpretado como a personificação do luto não elaborado da protagonista. À medida que ela nega sua dor, a criatura se torna mais ameaçadora; quando passa a reconhecer e acolher esse sofrimento, o monstro perde sua força, embora nunca desapareça completamente. Essa dinâmica reflete a própria lógica psicanalítica: o que é reprimido não deixa de existir, mas retorna sob outras formas.

Os filmes de terror utilizam sustos, atmosferas inquietantes e figuras monstruosas para provocar não apenas medo, mas também reflexão. Nesse sentido, o medo torna-se uma ferramenta poderosa para explorar a mente humana. Dentro desse universo, o terror psicológico se destaca por distorcer a percepção da realidade, gerando desconforto e instabilidade. Obras como O Iluminado (1980) e O Homem Invisível (2020) mostram protagonistas que, gradualmente, passam a duvidar de sua própria sanidade.
Esse subgênero atua diretamente sobre nossas inseguranças mais profundas, questionando aquilo que vemos, ouvimos e acreditamos ser real. Assim, o terror psicológico não depende apenas de ameaças externas, mas da fragilidade da própria mente. A psicanálise aplicada ao terror investiga justamente como o medo, o horror e o inquietante se manifestam no inconsciente. A arte e o cinema, nesse sentido, funcionam como espelhos simbólicos de nossos traumas e conflitos. Sob a perspectiva freudiana, o terror não é apenas uma reação a perigos externos, mas a irrupção de conteúdos reprimidos ou o confronto com aspectos da realidade psíquica que evitamos reconhecer.
Dessa forma, os “monstros” deixam de ser apenas criaturas fictícias e passam a representar medos, desejos e conflitos internos. O terror, portanto, revela-se não apenas como entretenimento, mas como uma poderosa forma de autoconhecimento, capaz de expor aquilo que, muitas vezes, preferimos manter oculto.
Referências
PAIXÃO, Ana Cláudia. Psicanálise e terror: o inconsciente no cinema. Medium, 27 maio 2025. Disponível em: https://medium.com/@anaclaudiapaixao/psican%C3%A1lise-e-terror-o-inconsciente-no-cinema-61238150d1b9. Acesso em: 31 mar. 2026.
![[COLÉGIO-CAMPANHA]logo-colégio-unidavi-v2.png](https://static.wixstatic.com/media/c36e51_5e1776d1019a4dd58a5b4a9c8a0c6e86~mv2.png/v1/fill/w_180,h_75,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/%5BCOL%C3%89GIO-CAMPANHA%5Dlogo-col%C3%A9gio-unidavi-v2.png)



Comentários