O Detalhe que Escapou a Aristóteles
- Viviane Burger
- 10 de set. de 2025
- 4 min de leitura
Se Brás Cubas, em suas Memórias Póstumas, debruçou-se sobre os pequenos fracassos e as grandes ironias da existência, o que ele não diria sobre o descuido com um pequeno detalhe, um detalhe que escapou à mente mais brilhante da Antiguidade: Aristóteles. O homem que catalogou a alma, a política e a natureza, mas que deixou passar em branco uma das propriedades mais fundamentais do universo: a inércia.
Para entender a física de Aristóteles, é preciso saber que ele não utilizava o método científico como o conhecemos hoje, mas sim seu próprio método dedutivo. Ele não montava experimentos em laboratório para testar hipóteses; utilizava a razão e a lógica para prová-las.
O processo que ele seguia é simples de compreender: primeiro, observava o mundo como ele se apresentava. A partir dessa observação, extraía o que Aristóteles considerava um “princípio fundamental”. Com esse princípio estabelecido, aplicava uma lógica rigorosa para deduzir todas as suas consequências, utilizando sua famosa estrutura: o silogismo.
O ponto fundamental para compreendermos seu pensamento é a ideia de teleologia, que permeia toda a sua teoria. A teleologia consiste na crença de que tudo no universo tem um propósito, uma finalidade. Uma semente, por exemplo, “deseja” tornar-se uma árvore porque esse é seu sentido teleológico. Uma pedra, por sua vez, “deseja” retornar à Terra, pois seu propósito é voltar ao seu lugar de origem, e é por isso que ela cai.
Essa visão de mundo levou diretamente à sua teoria do movimento, que é dividida em duas categorias principais:
Movimento natural: é a tendência dos objetos a moverem-se para seus lugares naturais, de acordo com seu propósito. A terra e a água, por exemplo, tendem a mover-se em direção ao centro do universo (o lugar natural da terra é "para baixo"), enquanto o fogo e o ar tendem a subir (o lugar natural do fogo é "para cima").
Movimento violento: é o oposto do movimento natural. Ele ocorre quando uma força externa age sobre um objeto, contrariando sua tendência natural. É um movimento forçado que, segundo Aristóteles, só poderia continuar enquanto a força estivesse ativamente empurrando ou puxando o objeto.
Essa foi a base do pensamento que sustentou a física aristotélica que, acima de tudo, é uma física de senso comum. Por isso, foi tão convincente.
Faça o teste agora, com qualquer objeto à sua volta: empurre-o. Ele deslizará; pare de empurrar e, eventualmente, ou quase instantaneamente, ele também parará.
Para Aristóteles, essa observação era a chave para entender todo o movimento no universo. Sua conclusão reinou por quase dois mil anos: de que, para que algo se mova, uma força precisa estar constantemente atuando sobre ele.
Mas essa lógica deixa alguns "buracos". O que, por exemplo, mantém uma flecha voando depois que ela deixa o arco? Aristóteles teorizou que o ar, deslocado pela flecha, corria para trás dela e a empurrava para frente, uma explicação complexa para um fenômeno que hoje compreendemos de forma muito mais simples.
Ainda segundo Aristóteles, a negação da inércia estava diretamente ligada à sua negação da existência do vácuo. Ele acreditava que a velocidade de um objeto era inversamente proporcional à resistência do meio em que se movia. Seguindo essa lógica, no vácuo (um meio sem resistência), um objeto teria velocidade infinita, o que ele considerava um absurdo lógico e físico.
Para evitar essa impossibilidade, Aristóteles concluiu que o vácuo não poderia existir. Assim, postulou que todo o universo deveria estar preenchido por alguma matéria: o Éter. Ao preencher todo o espaço, essa matéria sempre ofereceria resistência, impedindo a velocidade infinita e, consequentemente, impossibilitando que um corpo se movesse perpetuamente sem uma força contínua. Ao negar o vácuo, ele negou, portanto, a própria ideia de inércia.
Curiosamente, a Igreja Católica medieval desenvolveu um grande apreço pelas obras de Aristóteles. Sua filosofia metafísica, com a ideia do “motor imóvel” como causa primeira de todo o movimento no universo (associada a Deus por São Tomás de Aquino), fortaleceu suas ideias por toda a Europa cristã. É verdade que suas obras foram inicialmente perseguidas durante o período patrístico, mas Aquino as reavivou posteriormente na Escolástica. Essa fusão entre o pensamento aristotélico e a teologia solidificou suas teorias, transformando-as em dogma.
Assim, a física de Aristóteles, mesmo nunca tendo sido rigorosamente comprovada experimentalmente, continuou a vigorar por quase toda a Idade Média, não apenas como uma teoria científica, mas como um pilar da visão de mundo estabelecida. Sob essa lógica, as flechas medievais e os canhões disparados traçavam uma trajetória retilínea até que seu ímpeto inicial se esgotasse, seguido por uma queda abrupta e reta em direção ao solo. Claro que, na realidade, a trajetória desses corpos é uma curva parabólica, mas a força do dogma aristotélico era tal que impedia a formulação de uma nova teoria.
O que realmente escapou a Aristóteles não foi um detalhe, mas todo o conceito de inércia. Ele não percebeu que o caixote não parava porque seu estado natural era o repouso, mas porque o chão estava constantemente freando-o por meio da força de atrito.
Apenas quase dois milênios depois surgiria Galileu Galilei que, através de experimentos com planos inclinados, simulou um mundo sem atrito e percebeu que uma bola, rolando por um plano perfeitamente liso, continuaria a se mover para sempre, com velocidade constante.
Nascia ali o conceito de inércia: a tendência natural de um corpo resistir a mudanças em seu estado de movimento. Um objeto parado tende a permanecer parado; um objeto em movimento tende a continuar em movimento. Não é preciso uma força para manter o movimento, mas como Newton descreveu mais tarde em sua segunda lei, para alterá-lo (seja para acelerar, frear ou mudar de direção).
Essa ideia, e outras, rendeu a Galileu uma grande perseguição por parte da Inquisição, que exigiu que ele próprio negasse suas teorias. Em 1633, sob ameaça, Galileu foi forçado a abjurar (negar publicamente) diversas de suas ideias. Algumas décadas mais tarde, Isaac Newton formalizou a inércia descoberta por Galileu em uma lei, cravando-a como a primeira de suas três leis do movimento: a lei da inércia.
Talvez Machado de Assis, com sua ironia, no capítulo cujo título abriu esta discussão, apreciasse essa história: a de um expoente do pensamento humano que, como o defunto autor Brás Cubas, deixou um capítulo essencial por escrever.

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